quinta-feira, 25 de abril de 2013

Capítulo 3 - Segredo Desvendado


O barulho da porta batendo me acordou em um susto, esfreguei meus olhos tentando mandar o sono embora. Ainda cambaleante, desci as escadas e me deparei com minha mãe que acabara de chagar em casa. Seus cabelos negros e cacheados estavam emaranhados, e como sempre as roupas coladas e decotadas. Ela deu uns pequenos passos em minha direção, quase caiu, com certeza ainda estava sob efeitos do álcool. Ela me olhou dos pés á cabeça com um ar de deboche. Sei que ela deve ter visto minha pior face, alias as noites mal dormidas estavam acabando comigo.

- Olha só como estar desleixada. - ela falou em reprovação.

- Mamãe, esteve naquela boate outra vez? - perguntei seria.

- Sim, - falou convicta. - E já falei para não se meter na minha vida.

- E como a senhora quer que eu não me meta? Quando você sai nunca sei se vai voltar bem. As coisas hoje em dia estão muito mudadas e-

- Chega! Pra que ser certinha a vida toda? Seu pai foi sempre direito e honesto, e agora onde ele está? - havia muita mágoa dentro dela, mas dentro de mim havia muito mais.

- Eu prefiro viver minha vida sem arrependimentos. - disse olhando em seus olhos.

- É, mas nada importa mais pra mim. - sua voz saiu segura, e meus olhos se encheram de lágrimas.

- Nem eu? - ela não respondeu e senti meu coração se quebrando. Seus olhos verdes apenas me observaram por alguns minutos e depois ela subia as escadas indo para o quarto.

O nó em minha garganta já estava impossível de segurar, eu sempre tentava ser forte e dizer para mim mesma que minha mãe esta passando por problemas difíceis, mas tudo tem um limite.

Senti as grossas lágrimas escorrerem quentes nas minhas bochechas. Fiquei mais um tempo ali deixando que toda minha dor contida se esvaecer, e o tempo parou naquele momento, mas o bip do relógio me despertou para realidade, tratei logo de me arrumar e mesmo sem vontade fui para o Instituto, meus olhos deviam estar com olheiras e inchados, tanto de insônia como de choro.

Assim que chaguei na escola, encontrei Ash cabisbaixa sentada em um dos bancos de concretos que havia espalhados pelo pátio.

- Oi, - falei e mesmo sem querer demonstrar minha voz saiu triste. Sua face encarou a minha seriamente.

- Algum problema? - parecia preocupada.

- O mesmo de sempre. - Ash era a única que sabia da minha mãe, aliás eu e ela nos conhecíamos desde crianças.

- Selena, ela ainda não superou. - senti meus olhos se encherem de lágrimas novamente.

- É, mas isso esta acabando comigo!- uma lágrima escapou sem querer. - Não sei se vou aguentar por mais tempo.

- Você vai sim! -ela me olhou com admiração. - Você é a garota mais forte que conheço até hoje, e com certeza você vai superar tudo isso.

- Mas eu tenho medo! Já pensou as pessoas ficarem sabendo? Além de ser vergonhoso é capaz dela nunca ser aceita em um trabalho, ser criticada...

- Calma! Só eu sei disso. E também sei que sua mãe vai conseguir vencer esse problema.

- Obrigada amiga. - disse abraçando-lhe. - Agora, por favor, vamos trocar de assunto. Conte-me alguma novidade, mesmo que seja daqueles ‘populares’ metidos. - vi o olhar dela voltar a ser cabisbaixo.

- Você nem sabe amiga! - ela balbuciou. - O Bieber esta namorando.

Estava na cara que aquela noticia deixava Ash triste, mas á mim me deixava incrivelmente aliviada. Agora sim ele largaria do meu pé.

- E quem é a ‘felizarda’?- perguntei com sarcasmo.

- A mocréia da Jasmine. - a loira falou entre os dentes. Mas para mim eles bem que se merecem tudo farinha do mesmo saco, arrogantes e egoístas.

O sinal tocou e fomos para sala, eu como sempre tentava ao máximo prestar atenção no professor e esquecer um pouco o problema com a minha mãe.

...

E assim a semana se passou, eu e minha mãe não nos falávamos, o namoro do Bieber era a ‘novidade’ do colégio, Ash sempre me contava uma coisa nova que acontecia naquele Instituto e eu passava as tardes lendo o livro que a profª Raquel havia recomendado. Quando o lia parecia que eu viajava para outro mundo, onde existiam bailes, vestidos longos e únicos, mães doidas para casar suas filhas. Mas o que mais me chamava atenção era o romance cativante entre Elizabeth e o Sr. Darcy, mesmo quebrando todas as barreiras conseguiram ser felizes juntos. Sorri, as vezes queria ter nascido em outra época.

...


A manhã de segunda feira chegou, para muitos era um dia especifico de ressaca, para mim mais um dia normal. Desci as escadas e não encontrei minha mãe, mas não ficaria desesperada com isso, afinal a vida é dela não é mesmo? Chegando no Instituto encontrei Ash que estava com uma cara bem amassada.

- É a festa da Greyci deve ter sido divertida.- falei zombando dela.

- Posso estar com essa aparência horrível, mas te digo que foi muito divertida mesmo. Pena que você não foi não sabe o que perdeu.

- Bem eu acho que eu sei o que perdi.- falei, Ash sempre me chamava para essas festas, eu nunca ia, e nem sentia vontades. Ela deu um sorriso feliz.

- Fiquei com um garoto tão bonito. - falou sonhadora. Revirei os olhos. - Ele beija tão bem.

- Você lembra o nome dele?- perguntei, e ela fez cara feia.

- O que acha que eu sou?- ela fez cara de indignada. - Ta, ok não lembro o nome dele! Há mas que liga? O importante é que ele era uma gracinha.

- Aff, você não muda mesmo. - o sinal tocou e fomos para sala.

Hoje era aula de literatura, eu estava feliz tinha feito a redação e também gostei muito do livro, mas eu sabia que muita gente nem se lembrava disso, inclusive Ash que não tinha mencionado nada.

- Que caras são essas. - a professora disse se referindo a caras amassadas dos alunos.- Espero que tenham feito meu dever. - ela falou autoritária. Vi as pessoas se entre olharem. - Quero saber quem fez. - saiu mais como uma ordem do que um pedido.

- Eu comecei a ler ontem. - falou a voz irritante de Jasmine.

- Eu passei á uma semana, e você começou a ler ontem?- Raquel falava sem satisfação.

- Ué professora, temos o dever de outros professores para fazermos. Para senhora se dar conta, acho que ninguém conseguiu fazer o exercício. - Jasmine disse segura de si. Eu odiava cortar o barato das pessoas mas eu tinha que fazer isso, né? Mesmo sabendo que muitos ficariam com raiva de mim.

- Eu fiz. - respondi em alto e bom som. A professora olhou para mim orgulhosa.

- Viu só? Se Selena pode fazer todos vocês poderiam.
- Mas ela é uma nerd! - Karin falou como se eu fosse de outro planeta. Virei-me encarando-a sem medo, afinal estava cansada disso.

- Pelo menos gasto meu tempo com algo de útil. - falei dando um sorriso falso para ela.

- O que você disse lambisgóia?- ela praticamente gritou em quanto ajeitava o óculos em seu rosto.

- Chega! - Raquel se irritou. - Como quase ninguém fez o dever, formarei quartetos para que dialoguem sobre o que vocês sabem. - em tão ela começou a apontar para os alunos formando quartetos. Eu apenas recebia olhares enraivecidos de Jasmine, virei o rosto e ignorei-a.


_Selena, Demi, Ashley e Justin- formem quartetos. “O que?” eu já ia exclamar e dizer que tinha feito meu dever, só que a professora sorriu meiga para mim.- Eu sei que já fez sua tarefa, mas não se incomodaria de explicar um pouquinho do livro para seus colegas né?- eu já ia dizendo que a única do quarteto que era minha amiga era a Ashley .Mas era tarde, Raquel já estava escolhendo outro quarteto.

Os olhos de Ash brilhavam.

- Justin Bieber vai sentar com a gente. - ela falava baixo, porém sabia que a mesma estava prestes a soltar um grito de alegria.

- Não é pra tanto. - disse, mas ela nem se deu o trabalho de me responder, seus olhos azuis se fixavam em Justin que estava vindo em nossa direção.

O observei um pouco, sempre com um ar rebelde e arrogante até seu modo de andar parecia superior aos outros, a jaqueta de couro por cima da blusa do colégio era sua marca registrada, é claro que suas vestimentas estavam fora das normas, mas quem disse que isso importava? Ele era o grande Justin Bieber, o mais rico e o poderoso. Seus cabelos loiros levemente bagunçados em forma de um lindo topete e os olhos cor de mel eram marcantes em sua face de traços perfeitos. Eu tinha que admitir, ele era bonito e atraente, mas também por de baixo de sua beleza havia apenas arrogância, malicia, orgulho e etc...

As carteiras já estavam arrumadas, uma de frente pra outra, ele sentou á minha frente e Ash correu para sentar do lado dele, Demi apenas se sentou do meu lado. Parecia que a única contente naquele grupo era Ash, que não se intimidava a olhar indiscretamente para Justin. O silencio reinava, eu não fazia o mínimo esforço de falar algo, meus olhos estavam perdidos na capa do livro, Justin  ignorava Ash completamente, já Deni estava com a face abatida e os olhos castanhos estavam em outra dimensão. De repente ela suspirou alto.


- Vamos acabar logo com isso. - ela falou. - O que você achou interessante?- essa pergunta foi direcionada á mim. Por que tinha que ser logo á mim?

- Err...- eu sempre dizia que era segura de mim mas na verdade, tinha coisas que me intimidavam. - O ponto de vista dos personagens. – disse sem tirar os olhos da capa do livro.

- Por que?- Demi parecia me interrogar.

- Eram paralelos. – disse olhando-a e perdendo um pouco da timidez. - Cada um tinha um modo de pensar, naquela época o ponto de vista de uma mulher era sempre ignorado ou apenas sem valor, mas Elizabeth era uma exceção ...- eu começa a explicar tudo o que tinha aprendido sobre o livros, e Demi anotava tudo em um pequeno rascunho, Ash fez o mesmo mas eu sabia que ela estava mais perdida do que barata tonta.

O sinal do intervalo tocou, olhei de relance para Justin e me deparei com seu olhar no meu, nós nos olhávamos pela primeira vez durante semanas, seus olhos sempre sérios, mas por um breve momento pude ver aquele olhar de desejo que ele tanto me dava quando estávamos á sós. Abaixei meu olhar e me surpreendi ao ver que as mãos dele estavam depositadas no livro, quando ia o perguntar, ela já não estava mais ali. Só havia Ash e Demi conversando entusiasmadas, guardava minhas coisas na mochila escutando elas falarem alguma coisa sobre a festa da Greyci.

Quando peguei o livro para guarda junto as minhas coisas, pude notar um pedaço de papel caindo dele. Agarrei o papel dobrado sem que ninguém visse, só podia ter sido o Justin á colocá-lo ali, balancei a cabeça negativamente e desdobrei o papel, mas nesse instante meu mundo parou.


‘Eu sei sobre seu segredo! Alias o segredo da sua mãe’ - o ar faltou em meus pulmões, do que Justin podia estar falando? Olhei para os lados, vendo se ela inda podia estar na sala, mas ele já havia saído.

- Selena você esta bem?- era voz de Ash.

- Sim. - disse notando minha voz sair trêmula.

- Ela esta pálida. - Demi disse se aproximando de mim. Escondi o papel entre a minha mão cerrada.

- Não é nada, só lembrei que o prazo para entregar o livro é hoje. - falei pegando o livro e saindo da sala. Ainda pude ouvir a voz de Ash me chamando, mas eu não voltei andei, mais depressa que pude até chegar à biblioteca. Mas alias o que eu estava fazendo ali? Eu não sabia talvez o desespero fosse tanto que não dava tempo para eu pensar. Desdobrei o papel mais uma vez e o li, não podia ser. O Justin só devia estar brincando comigo.

_Eu sabia que você viria. - soltei um grito de susto. Mas não havia ninguém naquela ala para me escutar.

Olhei para ele intrigada e ao mesmo tempo me forçando para ser segura de que aquilo era só uma brincadeira.

- O que significa isso? - minha voz saiu séria, e vi um pequeno sorriso se forma em seus lábios. Ele não respondeu nada apenas começou a andar se aprofundando naquela biblioteca escura, olhei para os lados vendo que não havia ninguém nos corredores, e temerosa o segui.

Ele parou na área onde tinha a letra J, no mesmo lugar onde nos encontramos pela ultima vez.

- Eu te avisei Selena. - ele ainda estava de costa para mim. - Mas você não me deu ouvidos.  - agora seus olhos cor de mel estavam direcionados nos meus. - Eu não sou de desistir facilmente. - e ele se aproximava ainda mais. Eu recuei dando um passo para trás.

- Não entendo. – disse mostrando o bilhete. Ele soltou uma gargalhada sarcástica.

- Saiba que eu não entendi muito no principio, na realidade me espantei. Alias quem ia imaginar que uma menina tão certinha e sensata poderia ter uma mãe dessas. - ele disse rindo debochado.

- Não fale da minha mãe desse jeito. - disse com raiva. - Você não sabe de nada!

- Há é aí que você se engana. - ele ria ainda mais. Como uma pessoa poderia ser tão sádica? No momento tinha nojo dele.


- É só um blefe. - disse confiante de mim mesma.

- Gomez, como você pode ser tão irritante e ao mesmo tempo tão bonita?!- os olhos dele se direcionaram para os meus lábios. Eu recuei mais uma vez. Ele apenas sorriu. Sua mão direita foi para parte interna na jaqueta de couro, tirando de lá um bolo de fotos. - Não é um blefe. - ele me entregou as fotos, receosa eu as olhei.

E não era um blefe.

Eram fotos da minha mãe em boates. Todas elas bem esclarecedoras e vergonhosas, a cada foto que eu passava meu olhar se dirigia á ele, o mesmo estava com um sorriso nos cantos dos lábios. Eu não aguentei ver todas aquelas imagens da minha mãe bebendo e dançando com outros caras, as lágrimas escorriam pela minha face. Eu não queria ver nada daquilo, joguei-as no chão. E me esforcei ao máximo para não desabar no choro na frente dele.
- Fico pensando no que as pessoas diriam se descobrissem isso. - a voz dele era cínica.
- O que você quer? - rugi. Vi o olhar dele brilhar em desejo.
- Você sabe muito bem o que eu quero. - senti minhas pernas fraquejarem. “não, isso só podia ser um pesadelo”.
Ele se aproximou com a face á milímetros de distancia da minha, quando eu ia recuar ele pegou firme o meu braço.
- Um dia. - ele disse com um tom autoritário. - Te darei um dia para pensar, quero que esteja aqui nessa mesma hora para me dizer sua decisão. Você sabe que se a resposta for não amanhã mesmo todos saberão sobre a reputação da sua mãe. - ele me soltou bruscamente e saiu, eu apenas desabei escorregando pela prateleira até me sentar no chão. Olhei para o mesmo vendo as fotos da minha mãe espalhadas por ali. Deixei que as lágrimas caíssem, enquanto pensava no que faria.
Tudo isso passaria por ela, mas será que valeria á pena? Eu sempre queria que ela superasse isso de uma vez, mas ela não fazia nenhum esforço. Peguei uma foto em que ela estava sorrindo, tive um reflexo dos momentos felizes que tivemos junto ao meu pai de como ela sorria se mostrando extremamente feliz.
- Farei isso por você. - disse baixo olhando para foto.

Um comentário: